Capítulo 9: Os Jardins do Castelo Dracula.




Primeira Parte: O Quarto Cavaleiro.

                Allen mal pôde colocar os pés na grama que incrivelmente verde, o céu estava limpo, noturno recheado de estrelas. A lua enorme vermelha, parecia que sangue iria brotar de suas crateras e as gotas iriam banhar todo o lugar. Um fêmur veio voando em sua direção, Allen saltou em um mortal para trás, depois que aterrisou viu que havia um esqueleto muito branco com um osso na mão. Aquela pequena  criatura medonha que não devia ter mais de 1,50m vinha saltando e mais ossos saiam magicamente das mãos secas e finas. O Belmont correu em sua direção desviando habilmente dos ataques, até que o chicote cortou o ar e acertou o monstro. Mas logo varios outros vieram jogando mais pedaços de ossos em sua direção. Ele então rolou no chão, acertou mais um tendo que rolar para o lado logo em seguida para se salvar mais uma vez, outra chicotada e uma explosão de mais outra caveira, com a Vampire Killer ainda em movimento a puxou e ela bateu em um outro que estava atrás, e mais outros cinco cairam de umas árvores que haviam por ali. Lembrou-se então das esferas que tinha guardado consigo. Correu na direção do grupo que estava pronto e saltando para desferir mais outros ataques, os machados faziam assobios enquanto iam rodopiando para destruir três dos cinco esqueletos. Um osso conseguiu acertar o jovem guerreiro no peito, ele caiu para trás mas logo saltou e jogou mais outros três machados no ar. Um esqueleto saltou para trás escapando do primeiro, porém deu um salto para frente e logo foi destruido pelo segundo machado. Antes que as outras lâminas terminassem de cair, Allen em alta velocidade ia se aproximando do restante para dar mais duas chicotadas, uma delas não acertou, porém a lâmina conseguiu aniquilar o último esqueleto.
                Mal teve tempo para respirar e ele pôde ver aves vindo furiosas em sua direção, o curioso é que elas montadas por pequenas criaturas corcundas e meio carecas, o que seu medalhão logo os denominou Homens-Pulga. O filho de Christopher lançou mais machados, mas nenhum deles conseguiu acertar. As criaturas saltavam das aves e ficavam pulando de um lado para o outro, horas vindo na direção dele, outras saltando para fugir. Uma dessas pequenas aberrações que só poderiam ser encontradas dentro do domínio do conde Dracula montou em seu pescoço dando socos na nuca de Allen. Ele logo se jogou para trás com tamanha violência para cima da árvore, que o homem em miniatura gritou em dor caindo no chão, não tinha muito tempo para perder então outra chicotada e monstrinho evaporou. No segundo seguinte outro ataque fez o rapaz cair no chão mais uma vez, era incrível como essas coisas pequenas tem uma força monstruosa. A Vampire Killer dançou no ar mais algumas vezes cuidando de mais um desses Homens-Pulga e as aves que vinham como misseis em sua direção. Ele correu para desviar de mais ataques aéreos que finalizou jogando mais machados para o alto. O folego estava começando a ficar escasso mas mesmo assim não parou de correr, pois via que mais esqueletos estavam aparecendo das sombras e ele sabia que jamais iriam parar de aparecer.
                Allen se encontrava em um enorme e vasto jardim muito bonito e bem cuidado para um Castelo que era obra do caos e escuridão, havia um caminho de pedra por onde ele passou correndo, chegando perto de uma fonte, água jorrava das pelas estátuas de uma mulher segurando um vaso. Não havia mais ninguém por perto, ele decidiu então voltar a caminhar para ajudar a recuperar o fôlego que logo em seguida o deixou por ver uma cena por demais grotesca. A primeira coisa que o deixou sem ar foi ver um ser envolto em um manto negro flutuando calmamente em sua direção, em uma de suas mão havia um objeto que ajudou o Belmont a identificar quem era. Allen novamente foi invadido por uma sensação de completo medo, um pavor imenso. Ele sabia que era a morte quem vinha em sua direção, segundo o seu pai o inimígo mais perigoso que ele poderia enfrentar. Porém seus olhos notaram que o ser de manto cor de luto carregava outra coisa no braço livre. Não, não era uma coisa, era um... bebê? Allen apertou os olhos para que a imagem ficasse mais clara, e teve a sua certeza era uma criança, não devia ter nascido a muito tempo.
                Allen tentou correr na direção da criatura porém não conseguiu, suas pernas não obedeciam, não era por medo, ele realmente queria correr, ele ia correr, mas simplesmente não podia.

                - Nem adianta tentar jovem Allen. Pois só se moverá se eu quiser. – disse a morte com uma voz rouca, feminina e podre.

                Logo outros seres foram saindo das sombras, todos vampiros, vinham saltando ou corendo numa velocidade extraordinária. E ali se aglomeraram na frente da vonte. A estátua da mulher que antes estava imóvel ergueu o vaso para cima e ficou parada assim. Allen observou tudo, o horror era enorme, a cena grotesca fazia com que ele não pudesse se conter em gritos e protestos. A morte ainda voava em cima da fonte, em cima do vaso, então levantou o bebê para o alto e largou a mão da foice que segurava e esta ficou flutuando ao seu lado.
                Segurando a criança que chorava e berrava sem parar, a morte a levantou segurando-a pela cabeça. Uma de suas mãos, que tinham a forma humana ficaram com uma de suas unhas mais afiadas como uma faca. Allen arregalou os olhos, não era possível, não ia acontecer, não ia deixar, tinha sair dali, era uma atrocidade. Por baixo do capuz a Morte ainda olhou para Allen e sorriu. Os outros vampiros ficavam sedentos esperando para o espetáculo de horror que iria seguir. O neném não parava de chorar, estava nú e encolhia suas perninhas, agitava os bracinhos. O ser de manto negro levou calmamente a unha afiada para a garganta da criança e ficou com ela lá sem fazer um único movimento. Allen berrava ainda mais em fúria, o seu corpo todo agora estava imóvel, ele tinha que fazer alguma coisa, tinha que fazer, não podia simplesmente ficar ali, que Deus o ajudasse!

                - Deus não está aqui conosco rapaz, sinto muito. – Disse a morte.
               
                De uma vez a unha perfurou o pescoço da criança que logo começou a cuspir sangue pela boca engasgando. Os outros vampiros gritaram de alegria, o Belmont podia ver que a criança se contorcia debilmente e as suas mãos se apertavam enquanto a Morte girava e enfiava cada vez mais fundo a unha dentro do pescoço, todo o sangue que jorrava do bebê escorria pelo seu corpo caia no vaso de mármore erguido pela estátua. Não satisfeita a Morte ainda virou a criança de cabeça para baixo segurando-a pelos calcanhares, e o sangue vermelho vivo jorrava mais ainda. O sorriso sádico da criatura estava cada vez mais aberto. Allen não podia acreditar no que estava presenciando no momento. A julgar que o corpo do bebê ainda estava tenso, ela ainda não estava morta, ainda estava sufocando e sofrendo de dor. A pele da criança foi ficando branca como papel, ainda foi chacoalhada com uma trouxa velha para ver se não sairia mais nada ali de dentro, então a largou para que caísse na pequena piscina de seu próprio sangue. A estátua desceu o vaso e voltou para sua posição inicial, e então ao invés de água, um líquido quente e vermelho caia, e os outros monstros da escuridão começaram a banquetear. Allen viu então que escorrendo junto com o sangue o corpo sem vida do bebê caiu no chão, alguns outros voaram para cima dele dilacerando-o por completo. A dor que Allen sentia no peito era tão forte que parecia queimá-lo por dentro. As lágrimas desciam de uma mistura horrível de tristeza, inutilidade e ódio.
                A aura azul novamente envolvia o corpo do caçador de vampiros com sentimentos de ódios tão grandes que não podiam se conter em seu corpo físico. E logo ele se livrou do feitiço, a sua Vampire Killer não era mais de couro, e sim uma corrente negra e pesada. Os vampiros logo pararam de se satisfazer do sangue da pequena que já não estava inteira, um deles estava com uma das pernas do bebê nos dentes. O sorriso da morte se desfez, ela ainda estava com o feitiço sobre ele, como? Como ele conseguiu sair? E tinha algo mais, algo diferente. Nas costas do Belmont, haviam luzes brancas em forma de asas. Não podia ser, a morte pensou. Os vampiros logo saltaram em sua direção, a corrente cortou com ferocidade o ar, dilacerando todos os vampiros com uma velocidade incrível. Os olhos do jovem Belmont brilhavam em um azul que poderia ter sido notado a quilômetros de distância. Outro vampiro veio voando em sua direção gritando, Allen então pegou um frasco de água benta e o agarrou pelo pescoço e forçou-o a beber tudo. A criatura berrou de uma dor horrível quanto tudo o que tinha dentro de seu corpo queimava em uma chama azul.
                A corrente mais uma vez ia cortando o ar e quem estivesse na frente. Ele não percebeu por sua vez que estava pisado ao lado do tronco dilacerado do bebê que viu morrer, os vampiros não paravam de querer atacá-lo, chicotadas impiedosas foram sendo dadas a cada um que se aproximasse, todo ali viraram pó no segundo seguinte. O último dos vampiros ali presente decidiu correr, o jovem Belmont pegou uma esfera e lançou em sua direção. O machado o decapitou, a cabeça voou e se desfez em pó antes de atingir o solo, o resto queimou em uma chama azul. Allen se virou para a Morte e saltou em sua direção, foi impedido por minúsculas laminas que vieram em sua direção, algumas foices de mão estavam cruzando o ar. Uma o acertou em cheio perfurando o seu ombro e o pregando em uma árvore. Allen berrava de dor e sangue saía de seu ombro. A criatura que flutuava desceu e caminhou em sua direção. Ao passar ainda passou por cima da cabeça criança morta.

                - Me diga rapaz. Por que está assim? Não sabes que sou eu quem determina, quem vai e quem fica? Se eu achei que a criança tinha que morrer, então ela tinha que morrer.
                - Vá para o inferno!
                - Eu já conheço o inferno, Belmont. Se não fosse desejo de Lord Dracula eu poderia ter sua vida nas minhas mãos agora, sabia? Mas você é precioso, uma vez que o seu sangue puro estiver correndo nas veias do mestre, então o mundo há de se lamentar pela eternidade.
                - Eu vou destruir você!
                - Oh, vai mesmo? E me diga, és um tipo de Deus? Ninguém pode me derrotar! Enquanto existir vida, existo eu também.
               
                Allen tentou se mexer, mas a dor da lâminas cortando o seu ombro fez com que ele urrasse.

                - Dói? Deixe-me ver!

                E a criatura pega o cabo da foice e faz um movimento para cima e para baixo. Allen urra de tanta dor que lágrimas descem pelo seu rosto.

                - Seu demônio maldito!
                - E você lá sabe o que é um demônio Belmont? Não fique cuspindo palavras que não sabe, menino! – a criatura falava com um sorriso, a parte superior do rosto estava tapada pelo capuz.
                - Como pôde? – Allen falava entre os dentes na pulsação de raiva que crescia cada vez mais.
                - Está falando do pequeno lanche que os vampiros fizeram? Ora rapaz, as pessoas têm de se alimentar não acha? Qual é a diferença entre um bebê e qualquer outro tipo de animal? Por que somente a chacina com seres humanos é uma atrocidade? Por que vocês pensam? – ela dá uma risada e passa a unha suja de sangue no rosto do caçador de vampiros. – Vocês não são diferentes de qualquer outro ser vivo. É correto esquartejar um bezerro ou um leitão, mas não é correto sangrar um bebê até o fim? Todos os três são filhotes, de três tipos de animais diferentes garoto.
                - Isso não faz o menor sentido! – Allen gritou.
                - Ah não? És bonito, porém, não é muito esperto, não é mesmo? Bom, garoto, vamos deixar isso para lá. Estarei esperando por você. Levarei seu corpo para Lord Dracula. Acho melhor sair daqui antes que sintam o cheiro do seu sangue no ar.

                A morte então desaparece e Allen fica preso na árvore, numa mistura de raiva, angústia, o horror de ter presenciado a cena, e a dor de ter tão pontiaguda lámina atravessada em seu braço e cravada no tronco. Ele pela primeira vez colocou a mão no cabo para tirar, o mínimo fazia com que ele uivasse de dor. Mais outra tentativa, e pôde sentir um milímetro de sua carne ser cortada, Allen não podia conter o choro de tão horrível dor. “Você não sabe o que é o inferno meu jovem.” Ele lembrou da alma com a cesta de flores e logo tudo fez sentido, não havia visto coisas tão horríveis lá fora como dentro das paredes do castelo do Lord das Trevas. Allen olhou para o lado, pensou ter ouvido alguma coisa. Talvez um galho quebrando, ou somente o vento farfalhando algumas folhas das árvores. A dor pulsava cada vez mais insuportável, ele olhou para a lua rubra, que de alguma forma trazia maus presságios. Mais outro toque e outro grito de dor insuportável. Finalmente o jovem escuta algo concreto, parecia ser um gemido grave e gutural, eram muitos deles, podia ouvir o que o vento trazia aos seus ouvidos. Estavam se aproximando, ele foi mais uma vez com a mão no cabo da foice, mas não conseguiu tirar, começou a arfar. Podia ver sombras se mexendo, estavam vindo em sua direção, a dor se mesclava a sensação de desespero que parecia agora ser sua única companheira por dentro do Castelo Dracula. Agora estavam mais nítidos e próximos, eram homens estranhos, tinham o corpo coberto de pelos, a cabeça não era humana, era como se fosse um cão. Logo o medalhão que ele carregava avisou-lhe que se tratava de lobisomens, criaturas muito ágeis e perigosa. Se o Belmont ficasse ali com certeza seria o seu fim, e então talvez as pessoas na Transilvânia não teriam mais chance de sobrevivência, as pessoas no mundo teriam o seu fim, perderia o amor de sua vida. Não podia arcar com tantas perdas importantes, então decididamente agarrou a foice e tirou-a de uma vez, um grito que poderia ter sido ouvido por quilômetros de distancia saiu de sua garganta e ele caiu ajoelhado no chão. Uma mancha preta começou a se espalhar pelo braço ferido. Sangue não parava de jorrar da fenda enorme que existia.
                Não era de se preocupar com isso, tinha que sair dali, pois um grupo de lobisomens estava fazendo um circulo fechado sobre ele, com suas bocas abertas e salivantes, os olhos vermelhos e brilhantes, todos estavam sedentos pelo caçador de vampiros e demônios. Allen se ergueu, com o braço ainda bom, pegou o seu crucifixo e ergueu-o no ar, o objeto flutuou e girou, uma luz branca e forte dizimou os inimigos que estavam presentes, ou pelo menos era isso o que ele achou por um tempo, pois agora de todos os lados ouvia passos apreçados, como se uma matilha viesse correndo para caçar. Não vendo outra alternativa achou que o melhro seria fugir. A cada passo de sua fuga a mancha ia se tornando mais intensa, cada vez mais negra, o sangue havia parado de sair e a fenda se fechado de forma misteriosa. O fôlego estava se tornando cada vez menor. Olhava para trás e os lobisomens estavam atrás na perseguição. Preparou a Vampire Killer e chicoteou um galho de árvore que o levou para cima, não foi o suficiente, as criaturas subiam com facilidade. Então ele viu que teria uma chance se fosse saltando de árvore em árvore, chicoteava de um galho para o outro, mesmo assim não tinha muita distancia dos outros. Um monstro saltou em sua direção, foi o tempo necessário para balançar arma e atingi-lo na cabeça fazendo com que se desintegrasse. Não se demorou e saltou para outra árvore. Percebeu então que do seu braço que agora estava todo negro, começava a sair fumaça, porém não ardia. Mesmo assim, não era hora de se preocupar com isso agora. Ao fim do caminho ele via uma porta com um dragão talhado na madeira. Se chegasse ali estaria salvo, pelo menos dos lobisomens. Na altura de seus problemas não podia mais ficar raciocinando o que seria bom ou ruim para ele, afinal de contas estava no lugar mais perigoso que qualquer um sonharia em estar. Não podia ficar pior que isso, podia? Novamente ele estavam em solo, e corria o máximo que suas pernas permitiam, estava perto agora, apenas mais alguns metros. Virou para trás e lançou ainda mais alguns frascos de água-benta no chão que queimaram, deixando assim uma pequena barreira que retardou a caça dos lobisomens. Allen continuou correndo para passar pela porta.
                Do outro lado uma vasta sala toda coberta em mármore, algumas estátuas com Anjos apontando espadas para baixo em pose soberana. Uma santa com um véu estava de pé olhando de cima para baixo uma criança que chorava aos seus pés e erguendo as mãos em súplica. O Belmont viu outra imagem que o deixou nauseado, era Jesus Cristo, com a coroa de espinhos de quatro enquanto um homem com pernas e cabeça de bode montava em cima, havia uma asa negra quebrada em suas costas, enquanto a outra estava inteira. Logo adiante em outra peça de mármore, de mais ou menos dez metros, uma cruz de cabeça para baixo com uma estátua de Cristo crucificado jorrava sangue pela boca que escorria pelo rosto até cair no chão. Os quadros estavam por toda parte, com imagens de esqueletos com asas massacrando anjos, um deles segurava a cabeça de um querubim que havia acabado de degolar e mostrava aos outros como um troféu. Ao olhar para baixo notou que no chão havia um enorme pentagrama. Allen deu dois passos para trás, nunca havia presenciado tanta coisa profana em toda a sua vida. Para piorar deu de costas com uma imagem grotesca da virgem Maria nua, com vários homens beijando o seu corpo. Apenas o véu em sua cabeça era o que a cobria. Ele parou para se perguntar um momento se um desses homens não seria José, pelo menos isso, mas não tinha como dizer, e mesmo assim, depois de tanta atrocidade duvidava que qualquer um deles fosse sequer conhecido da Virgem Santa. A luz que clareava a sala era toda por velas e tochas, alguns castiçais pendurados nas paredes, que Allen logo lembrou do que podia fazer com eles. Se dirigiu para um deles, mesmo tentando desviar o quadro que tinha a imagem de Jesus fazendo amor com um anjo da forma mais explícita, conseguiu chicotear o objeto e de lá caiu uma adaga, Allen se agachou e pegou-a. De repente todas as chamas se tornaram negras.

                - Seja bem vindo, filho de Christopher.

                Uma sombra se estende pelo chão, e dessa sombra se ergue soberana diante do rapaz, a Morte em seu manto negro, segurando uma enorme e afiada foice, as mãos delicadas e brancas envolviam o seu cabo, a julgar pela boca e a parte do rosto que não estava tampada pelo capuz, podia jurar que era uma mulher que estava de pé naquele momento. Mas mesmo Allen Belmont não estava em posição de fazer suposições, pois no momento em que aquele ser que tinha algo de belo e sinistro se ergueu o seu braço que estava negro e fumegante começou a arder como se ele estivesse em brasa. A morte caminhou em sua direção e tocou-lhe o braço fazendo com que ele urrasse de dor.

                - Dói? Pois muito bem rapaz, eu tenho que te dizer que a dor tem que ser a última das suas preocupações. Quando foi atingido pela minha foice, coloquei um feitiço em você a medida que a mancha negra for espalhando pelo seu corpo, cada parte de você vai sendo entregue ao lado do Conde Dracula, até que você não possa ter mais controle sobre sua alma, e você irá para o seu sacrifício.
                - Vou te fazer pagar por isso! – Allen gritou.
                - É mesmo garoto? Pois eu gostaria muito de ver isso acontecer.

                A morte voa para o alto e faz com que várias foices menores apareçam rodopiando ao seu redor, Allen dá alguns passos para trás, antes que ele pudesse pensar no que fazer, duas das lâminas flutuantes vinham em sua direção com uma enorme velocidade, ele se jogou no chão para se desviar de uma, rolou para esquivar-se da segunda. Elas foram para um canto da sala onde havia um quadro de dois anjos se beijando e tocando seus órgãos sexuais. Deram a volta e como um raio seguiram em direção ao rapaz que deu uma chicotada eliminando-as. A morte por sua vez ia flutuando calmamente em sua direção com mais foices ao seu redor. Allen correu em sua direção pegou do seu pescoço uma cruz e a lançou para o alto, ela girou e soltou uma luz branca que atingiu seu algoz ferozmente. Então a criatura sumiu em meio as sombras, ele só podia ouvir alguns sussurros, sabia que a voz era de sua inimiga. Olhava para os lados e nada encontrava. Foi quando algo rasgou suas costas, uma onda de choque ardente e calor, fizeram com que ele voasse para frente, logo atrás a Morte segurava sua foice com uma faixa de sangue gotejando em sua lâmina. As costas do Belmont estavam rasgadas em um corte na horizontal. Ainda de face para baixo tentou se levantar com muito esforço. Por sorte não foi degolado, quando mais uma investida mortal foi-lhe desferida. Mais foices flutuantes vieram em sua direção, mais duas chicotadas e estavam eliminadas, e teve que se proteger de mais e mais.
                Allen tinha que de alguma forma conseguir chegar perto da Morte para que pudesse ataca-la, mas como faria isso se estava envolta em uma barreira completamente afiada? Não havia muito tempo para pensar, pois mais uma vez ela apareceu por suas costas com mais um golpe. Mais uma vez de quatro e sangrando, o seu braço negro ainda queimava de dor. A Morte levantou sua foice e fez que ia descer, se Allen não tivesse escapado a tempo a ponta da lâmina teria atravessado um de seus olhos. Porém deslizou passando por baixo dela, com um movimento rápido usou o chicote para agarrar a sua inimiga pela cintura e joga-la contra a parede. A Vampire Killer ardeu em chamas assim que tocou o corpo da criatura que flutuava. Ela bateu com uma cruz que estava pendurada de cabeça para baixo. O Belmont correu em sua direção, vendo que ela ainda não havia levantado e deu mais dois golpes com sua arma sagrada, a Morte ainda gritou de dor e tentou se levantar, porém uma chicotada bateu em sua cabeça, fazendo com que o capuz fosse arrancado. Revelou então o rosto de uma mulher bonita, com a pele branca de finos traços, os olhos estavam brancos, porém nada podia dizer que ali uma mulher maravilhosa. Os cabelos negros escorridos até os ombros ficaram a mostra. Allen notou que o seu pescoço estava levemente dilacerado, provavelmente mordido ferozmente por algum tipo de animal, um lobo talvez, ou talvez... Dracula!
                Foram segundos de reflexão suficientes para ela se erguer novamente no ar e sair pela porta daquele enorme salão, voltando ao ar livre do jardim anterior. Allen correu atrás dela, Com o chicote conseguiu se segurar no tornozelo da criatura, vendo que não passava de uma humana com incríveis poderes. O couro pegou fogo assim que entrou em contado com a pele da coisa. A mulher gritou e tentou cortar a Vampire Killer, mas foi inútil. Allen ziguezagueou com ela pelos ares vendo a lua rubra da noite que não fazia parte do mundo real. Pelo menos não do mundo que ele conhecia. E então ela mergulhou no ar em meio as árvores, Allen bateu com a cabeça em um dos galhos e foi violentamente jogado no chão. A imagem perdeu o foco enquanto ele tentava se por de pé, cambaleou e correu, um assobio passou com um leve sopro no seu ouvido, uma pequena foice tinha sido arremessada em sua direção, por pouco não perdeu o ouvido. Caiu mais uma vez, e por alguns centímetros se arrastando, ele tentava achar algum lugar para se esconder, até que pelo menos recuperasse os sentidos completamente.
                Foi aí que ele urrou mais uma vez de uma dor dilacerante. Na parte traseira de sua perna a lâmina adentrou-se em sua carne.
                - Não adianta fugir Allen Belmont, você será do mestre! E assim que ele acabar de fazer o que tiver que fazer com você, o jogará para que seja banquete de outros vampiros e seres hediondos.
                Allen rastejou mais um pouco, pois estava com dificuldade ainda de sentir a dor pulsando por todo o seu corpo, o braço enfeitiçado já não respondia mais. Estava mole e inútil. Então para ele tudo tinha acabado, parou de tentar fugir. Deitou-se na grama que roçou entre os seus enormes cortes fazendo com que fizesse uma careta de desconforto. A mulher ainda sorriu contemplando a sua vitória.
                - Sabe, não estava esperando que você fosse desistir assim tão prontamente, o seu pai foi bem mais corajoso que você está sendo sabia?
                - Sou... muito... diferente de meu pai....
                - Eu percebi, você é humano, Belmont. E humanos são fracos. Por mais que seu pai fosse um homem corajoso, nunca deixou esses sentimentos ridículos como, carinho e amor de lado, a fraqueza dele o levou ao sofrimento, ao de perder o filho.
                - Que... ele logo depois.... recuperou.
                - Mas será que vale, me diga jovem Allen? A sua dor, esse seu sofrimento, as coisas que você viu aqui, valem a pena para salvar pessoas que você nunca viu? Pessoas que às vezes tentariam mata-lo? Vale a pena a dor...- a morte se agacha e balança a lâmina enfiada na perna dele. -  que está sentindo para proteger um bando de gente que sequer sabe que você existe?
                Allen tremia de tanta dor e agonia que estava sentindo, pelos cantos de sua boca a saliva escorria espumante pois a contração muscular para conter o grito era enorme. Quem o visse desse jeito no meio das ruas das ruas diria que ele estaria tendo um ataque e que logo morreria, talvez pela peste que andava correndo pelas redondezas. Sua mente ainda repetia as últimas palavras que tinha escutado, será mesmo que valia a pena tudo aquilo que estava passando?  Por quem estaria lutando? Por que logo os Belmont teriam esse fardo, ele não poderia ser apenas mais um fazendeiro normal? Por que logo as trevas tinham escolhido sua família para tal maldição. Solieyu tinha razão em não querer ter a vida que estava destinado a ter, talvez se tivesse pensado antes, jamais teria dito aquele maldito sim. E como se isso já não bastasse a morte fazia questão de não deixa-lo pensar que em algum momento aquele sofrimento se acabaria, mais outra mini-foice apareceu em uma de suas mãos e de repente ela a crava no braço que está negro, a cor já está tomando conta de metade do peito do guerreiro que se contrai de forma agoniante tamanha dor que está sentindo. Jamais em toda a sua vida tinha sentido algo tão ruim. Tudo o que via estava embaçado e vermelho. O braço que ainda estava bom busca o chão para que ele possa continuar se arrastando para longe dali deixando um rastro de sangue. O cabelo suado e oleoso pende na frente do seu rosto assim que ele faz força para ficar de joelhos. Todos os músculos estão tremendo. A mente de Allen Belmont agora é um vazio, não há nada o que pensar, não está ouvindo absolutamente nada também, tudo parece mais distante, até mesmo depois de levar um golpe que fez com que ele voasse alguns metros e batesse em um tronco de uma árvore seca destruindo-a.
No meio das lascas de madeira Allen se ergue, uma luz azul cintilante envolve o seu corpo todo machucado e cortado, de sua cintura ele tira uma adaga que havia pego no seu caminho andando pelo Castelo. A morte não espera e mais uma vez vai em uma investida, Allen salta. Os dois se encontram no ar, a sua mão se ergue e ele então finca a lâmina no peito da criatura que grita de dor e agonia e sai voando dali. Ele se depara com uma torre enorme, no topo havia um enorme relógio, parecia que não estava funcionando, a lua vermelha agora se escondia atrás dessa grande torre. A mulher agarra-o pelo pescoço e joga em direção aos ponteiro, ele atravessa o relógio de vidro e cai de costas em um piso de madeira. Finalmente e com muita dificuldade ele se pões de pé e contempla todas aquelas engrenagens paradas, empoeiradas e repletas de teias de aranha. De onde o Belmont estava, dava para ver os andares de baixo, o que não era uma boa idéia, pois muitos deles estavam com os seus pisos em péssimo estado, ou sequer tinham um. Então caminhando dois passos a frente ele ainda olha para os lados esperando, esperando e esperando. Ela não aparece. Os sentidos do caçador de vampiros está atento ao menor detalhe, seus olhos percorrem de uma extremidade a outra, porém nenhum sinal.
De repente algo fez com que ele ficasse novamente de joelhos no chão, uma dor horrível tomava conta, abriu a camisa para ver que o seu peito inteiro estava negro e fumegando, parte do seu pescoço também estava da mesma forma. O desespero estava tomando conta, não sabia como se livrar disso, e agora estava sentindo que suas pernas estava ficando fracas devida a perda de sangue e dor. Não iria muito longe. Talvez ali, jogado no meio do nada seria o fim dele, não tinha chegado nem perto de matar o Conde Dracula. Tudo estava acabado, os seus olhos percorreram o nada a fim de encontrar alguma resposta. A mancha negra se espalhava velozmente por todo o corpo agora, pescoço já estava tomado, o outro braço também estava quase todo amaldiçoado. Caiu no chão deitado, o ar no seu peito se fez rarefeito. Tinha que pensar em alguma coisa, não podia acabar ali, ele tinha... tinha...
O vidro voou e estourou no ar, milhares de gotas caíram como uma tempestade, uma chuva se formou e logo molhou todo o lugar inclusive o corpo do homem que estava imóvel e completamente obscurecido. A fumaça ficava mais intensa a cada gota de água que caia. Porém as manchas iam aos poucos mudando, iam parando de avançar, estavam retraindo. Allen piscou o olho mais uma vez, não sabia que seu ato de desespero poderia dá-lo genial idéia. Assim que um de seus braços voltou ao normal tratou de lançar outro frasco no ar e dizer umas palavras mágicas que tinha aprendido com o seu pai, assim outra chuva de água-benta de formou. Por fim o que tinha infectado o corpo dele havia passado porém os cortes e as feridas ainda estavam abertas e o sangue vagarosamente escorria. Rasgou a manga de sua roupa e amarrou onde haviam as feridas, colocou-se de pé e rumou novamente por onde havia entrado.
Chegando lá finalmente olhou para baixo, não tinha descer, era muito alto, qualquer coisa viva que saltasse dali e não tivesse a habilidade de voar morreria com certeza. De repente uma mão agarra o seu tornozelo e o puxa para baixo, desequilibrando-se ele cai. Logo em seguida ele vê sua algoz com um sorriso sádico no rosto vindo em sua direção, sem pensar duas vezes Allen pega sua Vampire Killer e lança na direção da morte, o chicote se amarra em seu pescoço e começa a queimar.
As mãos tortas da mulher agarram o chicote em dor profunda querendo arranca-lo dali. O jovem Belmont dá um puxão para baixo, e faz com que ele se agarre nela mais uma vez. Ela tenta voar para outro lugar, estão chegando cada vez mais perto do chão. Soltando o chicote Allen se joga no chão e ela continua voando até bater contra um tronco de árvore mais adiante.
Ela levanta cambaleando, o rapaz corre em sua direção e dá mais dois golpes com a Vampire Killer. Tinha que aproveitar a vantagem que estava levando, não sabia quando teria outra igual, e para isso tinha que ignorar a dor feroz que sentia por todo o seu corpo. Ela ainda tentou golpea-lo com a foice mas foi inútil. Em um último açoite ela é lançada para trás e cai no chão. Allen finalmente arfa e cai de joelhos no chão, a batalha estava terminada.
O cansaço mostrava-se no rosto do jovem rapaz, a cena grotesca de tudo o que tinha visto ainda corria pelos seus olhos. Jamais iria esquecer aquele bebê, as mãozinhas apertadas em uma dor que jamais entenderia. Pensou se talvez valesse a pena, e chegou a conclusão que sim, que lutaria até o fim para não ter que ver essa cena novamente. Para não ter que ver qualquer ser humano sofrer daquela forma. Era essa sua missão, era esse o seu destino. E seria assim até que o próximo Belmont tivesse poder da Vampire Killer. Iria acabar com Dracula, nem que fosse por outros cem anos, qualquer coisa vale, até mesmo dez minutos de paz, faz valer qualquer esforço.
Os seus olhos azuis se levantaram lacrimejantes. A mão estendida para que ele visse.

- Você... é Allen... não é? Irmão de Solieyu?

Ele olhou para a mulher ali no chão, sua expressão mudara totalmente agora ela parecia... humana. Mesmo assim poderia ser um truque, ele pensou. Porém, o choro, ela está soluçando, não parece ser tão falso assim. Ela está chorando mesmo. Mas que diabo está acontecendo aqui?

- Me responda... por favor... é você Allen?
- Sim... eu sou Allen Belmont.

                A mulher então sorriu. Um sorriso fraco e quase sem vida, embora os seus olhos brilhassem de forma muito triste. Mal tinha forças para falar qualquer coisa.

                - Você se parece... com seu irmão... eu tenho.... um favor a te....- ela cospe sangue. – pedir...
                - ...
                - Juste... meu filho... seu sobrinho.
                - Juste?? – então uma luz trouxe algo na mente do jovem Belmont.
Eu tenho uma mulher e filho, não sei onde eles estão...
Quero que cuide deles para mim.
                - Eleonora?? – Allen corre em sua direção, seu corpo inteiro tinha ficado gelado, o tempo todo havia lutado mortalmente contra a mulher da qual tinha tomado grande carinho apenas por carta.

                Ao ouvir o seu próprio nome ela deu um sorriso fraco. Dracula de alguma forma a possuiu e deu-lhe os poderes de sua fiel companheira, a morte. Allen corre em sua direção e se ajoelha segurando-a nos braços, as mãos trêmulas tentavam manterem-se calmas.

                - É uma pena... que tenhamos que nos conhecer... nessas circunstâncias... – mais outro sorriso fraco, e antes que Allen pudesse dizer alguma coisa, foi interrompido. – Escute... fui eu... quem trouxe Dracula de volta. Eu juntei... as sete relíquias do inferno... eu fiz todo o ritual para que o castelo revivesse. Que Deus me perdoe, pois eu abri as portas do inferno. Achei... – ela puxou um pouco de ar. – Achei que eu pudesse mata-lo... achei que pudesse vingar a morte de meu... – lágrimas começam a descer de seu rosto. – meu amor... Mas ao invés disso, a única pessoa que morreu fui eu, pois minha sede por vingança... por todos esses anos... deixaram Juste sem uma mãe... eu esqueci de meu filho... vaguei a Europa toda atrás dessas peças malditas. E... morri para meu filho... que Deus me perdoe, pois agora eu ganho o meu castigo. – ela aperta a mão de Allen. – Por favor... cuide do meu filho... por favor... não deixe que nada aconteça com ele...
                - Não deixarei. Eu prometo! – não havia mais nada o que fazer, Allen sabia que era o fim de Eleonora.
                - Eu queria... queria tanto que, que eu, você, seu pai e seu irmão fossemos uma família... uma pena... pena que isso nunca aconteceu...

                E gentilmente Eleonora Belnades Belmont arde numa leve chama azul e desaparece no colo de Allen. Ele então se levanta e olha para a lua vermelha que ilumina uma sala mais alta que todas as torres do castelo. Aperta com mais firmeza o seu chicote sagrado nas mãos.
                - Eu juro! Juro que vou destruir você!
               

Segunda Parte: A Torre do Campanário



                Ainda com a mente perturbada de sua última batalha Allen Belmont ficou parado na sala onde tinha batalhado com a sua até então desconhecida cunhada. Cambaleando e fraco da luta ele se pôs a mover para fora dali. O guerreiro tinha os olhos fixos na torre em sua frente. A lua parecia que ia começar a sangrar a qualquer momento tão rubra que estava. Se fossem perguntar que tipo de sentimento ele tinha naquele momento, talvez nem ele poderia responder. O seu rosto estava grave e duro, nem mesmo as dores poderiam incomodá-lo tanto assim. Nem mesmo a sensação de que poderia estar chegando perto do senhor das trevas fazia com que ele de fato pudesse definir os seus sentimentos ou até mesmo tê-los. Allen Belmont não era a mesma coisa que entrou pelos portões dos domínios de Dracula. A única coisa que mudara é que segurava o seu chicote sagrado com mais força do que de costume. Sua mente ao contrário não estava tão vazia quanto o seu coração. Ele chegou a se perguntar se valia a pena mesmo, se o que havia pensado antes, era realmente verdade. Se o sacrifício de alguns seria o suficiente para o bem de todo o resto. Quem estivesse lá fora, talvez jamais fosse saber o quão horrível era ver o que ele viu. Talvez não haveria ninguém no mundo que um dia pudesse definir o horror como Allen Belmont podia. A cada passo que dava ele se preocupava cada vez menos com as pessoas. Parecia que boa parte dele havia morrido dentro das paredes do castelo.
                No caminho para a torre, nada aconteceu, ele chegou a passar perto de outro cemitério. O que deixava-o mais confuso ainda e refletiu ainda mais sobre tudo aquilo. Por mais que as imagens fossem distorcidas, ainda assim eram imagens sacras. Por que havia tanta cruz, inclusive uma capela nos domínios do que era chamado de filho do Diabo? Mais alguns passos em frente e ele viu uma fonte onde havia uma estátua de uma mulher com um jarro apontado para baixo, onde saia água. Nesse momento ele desejou um gole e se apressou naquela direção. Mergulhou a mão na água e antes que pusesse na boca para beber, algo o fez parar, não poderia beber alguma coisa de lá. Mas estava com tanta sede. Olhou mais uma vez para a torre. Voltou a sua atenção para a água, seu coração não se pronunciou, na verdade se ele morresse ou não, provavelmente não faria a menor diferença. Juntou as duas mãos em forma de concha e deixou que se enchesse o suficiente para poder beber. Depois do primeiro gole, sentiu uma leve brisa tocar os seus cabelos, olhou para as mãos, e todos os seus machucados lentamente começavam a desaparecer. As dores também iam sumindo, encheu a mão novamente e sentiu imediatamente melhor. Todos os seus ferimentos haviam desaparecido. Ele não conseguiu segurar um sorriso, pois Dracula realmente estava brincando com ele. Ele era um rato encurralado que tinha apenas um momento para respirar a fim que pudesse ver com mais clareza que o seu fim estivesse próximo.
                Foi caminhando para perto de um dos túmulos do pequeno cemitério em que estava e pegou a base de uma cruz de mármore que tinha ali. Deu um soco e a quebrou fazendo assim com que a cruz saísse, ele colocou a mesma em sua cintura e novamente seguiu caminho para o que sabia ser o seu novo destino.
                Não precisou andar muito para que chegasse aos portões do que era um Campanário. Empurrou com as duas mãos as enormes portas de madeira maciça, elas rangeram majestosamente, ele contemplou uma escadaria em espiral e só ali se deu conta do tanto que deveria subir, parecia não acabar mais. Haviam sinos negros por todos os lugares igualmente gigantescos. Allen não se deixou intimidar e começou a subir olhando somente para frente. Se os seus sentidos estavam aguçados naquela hora? Há muito eles não se tornavam menos atentos. Ele estava pronto para qualquer coisa que fosse atacá-lo. E ele subiu e subiu. Nada aconteceu nesse tempo que parecia não passar. Olhou para baixo uma vez e mal podia ver o chão de onde ele tinha começado. Olhou para cima e não sabia ainda onde seria o fim de sua escalada. Um passo após o outro ele continuou. Não sabia dizer se foram por minutos ou horas, mas também pouco importava. Não queria saber. Não o importava. Ele tinha que tomar cuidado pois não havia onde ele se segurasse nas escadas e uma queda daquela altura poderia ser fatal. Continuou subindo e ainda assim não se sentiu cansado, olhou para cima mais uma vez e nada de aparecer o fim daquela maldita torre. De fora não parecia ser tão alta, mas logo percebeu que isso seria mais uma das maldições daquele castelo demoníaco.
                Algo o fez parar. Seus olhos foram de um lado para o outro lentamente, inclusive diminuiu a respiração para que pudesse ouvir com mais clareza o que tinha pensado ouvir. Nada aconteceu. Mais alguns segundos parado e ele finalmente voltou a se mover. Para que não ficasse tão entediado com a subida começou a reparar nas correntes que sustentavam os enormes sinos que ficavam em alturas diferentes por toda a extensão da torre. Novamente um barulho e Allen se virou. Dessa vez e olhou para baixo. Não viu nada, nada que movesse na escuridão abaixo, olhou para cima novamente e tudo parecia quieto, porém outro barulho aconteceu e logo ele esperou. Ele sabia dentro dele que alguma coisa iria acontecer. Foi um piscar de olhos que então eles vieram, uma nuvem negra, o barulho ecoando por todas as paredes era ensurdecedor, nessa massa negra ele pode distinguir por um ou outro que eram todos um grupo morcegos em incontável quantidade vindo furiosamente em sua direção de baixo para cima. Foi tudo tão rápido que ele só conseguiu se jogar para trás e se encostar na parede. A massa negra ia passando toda para cima, depois alguns segundos para que ele pudesse ver o fim do grupo de morcegos. Quando finalmente acabou ele olhou para cima. A nuvem negra havia parado de subir, os morcegos todos estavam se rearrumando formando assim uma enorme bola, e para a infelicidade de Allen, ele lentamente começavam a descer como em uma montanha russa que logo pegaria a maior velocidade. A tudo em uma questão de meio segundo e eles estavam a quase meio metro de distância dele e não viu outra coisa que pudesse ser feita a não ser pular dali. Se jogou para o lado mirando em uma das correntes que seguravam um dos sinos.
                Se agarrou com uma das mãos fazendo o enorme instrumento balançar de um lado para o outro e vibrando em um som enorme. Alguns morcegos que não puderam parar na decida explodiram no chão tamanha a violência com que bateram nos degraus. O resto novamente se rearrumou meio atrapalhados e voltou a ir em direção de Allen, que se jogou para outro sino que estava um pouco mais abaixo. Ao aterrissar no outro também o fez vibrar em outro estrondo. Alguns morcegos começaram a balançar de um lado para o outro, outros foram de encontro sem controle contra as paredes da torre e novamente houve uma nova organização do grupo. Segurado em uma das correntes, Allen com a outra mão pegou um frasco de água benta e jogou para cima desferindo algumas palavras mágicas e uma chuva começou ali dentro. Mais outros grupo de morcegos desavisados foram atingidos e queimaram em uma chama azul, enquanto o resto que ainda era em monstruosa quantidade havia se separado para não serem aniquilados de vez. O Belmont olhou para os lados e havia um outro sino um pouco mais em cima, não ia conseguir chegar até ele saltando então pegou a sua Vampire Killer da cintura, girou a no ar e com um movimento de seu chicote fez com que ela se enroscasse na corrente que agüentava o peso monstruoso do outro instrumento. Allen pulou de onde estava e balançou até ficar próximo e foi se puxando para cima até que conseguisse encostar os pés no metal do sino. Enquanto ele subia a nuvem negra vinha em sua direção com extrema velocidade. Pressentindo o ataque, Allen colocou os dois pés no metal e ainda com o chicote enroscado no seu braço para ter mais firmeza, ele se empurrou dando um mortal para cima, isso empurrou o sino para frente, enquanto o caçador girava no ar o sino tocou reverberando por todos os cantos e foi aí que ele viu que mais morcegos começavam a perder a sustentação no ar. Ele pousou no instrumento ainda em movimento e viu que uma parte começava a cair desajeitadamente.  
                Já de pé e firme ele viu novamente a massa negra se organizar para um novo ataque. Ele olhou novamente ao redor e percebeu que havia um sino acima dele, também impossível de alcançar no pulo, mais uma vez ele movimentou a sua Vampire Killer para que se enroscasse no martelo do sino, ele sabia o que tinha o que fazer. Antes do movimento ser feito era tarde demais, com tamanha rapidez ele se viu dentro da nuvem, suas asas eram afiadas como lâminas e começaram a cortar a sua carne, uns dois morderam suas pernas e ficaram presos nelas. Ele perdeu o equilíbrio e caiu de onde estava. Bateu as costas e rapidamente ia caindo para um nível cada vez mais abaixo. A altura era tão enorme que ele teve tempo de raciocinar e chicotear qualquer coisa que pudesse segurá-lo e foi isso o que fez. O chicote se enroscou em uma das correntes e fez o rapaz ser jogado contra uma das paredes da torre com violência, caindo de costas nos degraus. Os dois morcegos ainda estavam mordendo as suas pernas. Ele pegou uma adaga e esfaqueou-os com violência e logo eles evaporaram em uma chama azul indolor ao caçador. Olhando para cima Allen viu mais uma vez a nuvem se organizar ao longe, mais outro ataque vinha em sua direção. Ele se levantou e correu escada a cima, não podia perder mais tempo, olhava atentamente para os enormes instrumentos de metal querendo achar um que fosse dar para o que ele queria. A nuvem vinha mais uma vez com fúria e sede de sangue. Os olhos de Allen viram a chance que precisava, rapidamente mais um movimento com o chicote e ele conseguiu enroscar onde queria. Um segundo antes de ser atingido novamente pelos morcegos ele pula se impulsionando no ar. O chicote se estendeu e ele tinha o seu peso seguro, então empurrando as suas pernas para frente ele se jogou pendurado. O martelo bateu em um canto do metal do sino fazendo um estrondo. A força o empurrou para trás e ele se deixou ir, fazendo o martelo bater na outra lateral fazendo outro barulho ecoar por toda a torre. Logo a massa negra de morcegos começou a ficar disforme, e uma grande parte deles começou a se desorientar e a cair, outros batiam nas paredes. Allen fazia o movimento de pêndulo e o som não parava mais. Os sons fazia com que todos os morcegos perdessem a noção e começassem a cair, outros se batiam violentamente um contra o outro e caiam rodopiando torre abaixo. A enorme massa de morcego se desfez e eles todos caíram finalmente. Allen Belmont se impulsionou mais uma vez e se desprendeu do martelo do sino que tocou ainda umas três vezes. Ele olhou para baixo para se certificar de que tudo estava bem. Não havia mais nada, porém ele havia caído pelo menos uma meia hora de subida de onde estava. Arfando ele voltou a subir degrau por degrau. Depois de trinta minutos ele voltou a se encontrar onde o ataque havia ocorrido e dessa vez seguiu em frente. Mais sinos e correntes por todos os lugares e as horas se passaram e nem um sinal de que algo iria acontecer. Allen de tempos em tempos voltava a olhar para cima e nada do fim parecer estar por perto, mais escadas e mais sinos. Mais e mais o tempo passava e Allen não tinha a intenção de parar.
                Por muito tempo ele não pensou em nada, e muito tempo havia se passado quando finalmente ele havia olhado mais uma vez para o que parecia ser o infinito, o caçador voltou a apertar a sua Vampire Killer, alguma coisa havia apertado em seu coração, nada parecia ter um fim ali. Ele parou e começou a analisar as paredes esperando encontrar qualquer coisa que lhe passasse despercebido, mas não foi capaz de identificar nada, blocos e mais blocos de pedras enormes eram o que constituíam as escadas e as paredes das torres com pequenas janelas que mostravam a escuridão da noite que parecia ser eterna, algumas mostravam um pedaço de uma distante e gigantesca lua vermelha. Mais alguns passos e ele se botava a andar sem saber se um dia chegaria a lugar algum. E mais horas se passaram, várias horas. Horas intermináveis para Allen Belmont, que o fez a se incomodar constantemente com o fato de parecer não sair do lugar, embora nada parecia ser a mesma coisa. Olhava para baixo e não via mais nada também, a escuridão dava a impressão de que se voltasse também desceria eternamente. Sentou-se nos degraus sem saber o que fazer, estava preso ali. As lembranças de tudo o que tinha passado de repente o arrebataram cruelmente e os olhos se encheram de lágrimas, não conseguia entender o motivo de tudo aquilo. Por que? Ele se perguntava. Qual era o motivo de tanta maldade, qual era o propósito daquilo? Sua mente e seu coração buscaram alguma resposta e nada veio. Allen chorou mais ainda, deixando que a tristeza e o desespero tomassem conta de vez. Ele se sentia fraco, se sentia inútil.
                Pegou de sua cintura a cruz que arrancara de um túmulo anteriormente, o que para ele, pareciam dias passados. Segurou firme com as duas mãos e em prantos encostou a testa na cruz e pela primeira vez depois de muito tempo rezou. A sua vontade era tão fervorosa que se balançava para frente e para trás em clamor por algum tipo de salvação. E mais algumas horas se passaram enquanto ele estava sentado. Finalmente quando as lágrimas haviam se acabado, ele guardou novamente a sua cruz e se pôs de pé, olhou mais uma vez para cima e deu inicio novamente a subida. Com o passar do tempo ele começou a sentir fome, e não havia nada que pudesse comer, não levava nada consigo que não fosse o necessário para as suas batalhas. Em um dos momentos ele passou perto de uma janela e olhou para fora e viu o céu sem estrelas, um vento frio bateu em seu rosto. Olhou para baixo e viu com extensão imensurável os domínios do conde Dracula e mesmo assim não podia medir o quanto estava distante do chão, pois haviam nuvens que não o deixavam ver para a base da torre que só se dissipavam para que ele enxergasse o horizonte. A sua jornada continuou, sempre para cima, sempre para frente, por horas e horas. Tinham momentos em que a fome apertava bruscamente e o sono começava a tomar conta do seu corpo junto com o cansaço de continuar subindo. Ele já havia perdido a noção de praticamente tudo em sua volta, os passos se tornavam mais lentos e se sentia mais pesado. Sentou-se mais uma vez para descansar enquanto a fome apertava de novo, os olhos fecharam uma vez, o sono se tornava muito forte. Ele se encostou na parede e deixou-se dormir.
                Quando abriu os olhos mais uma vez se encontrou deitado na beirada das escadas prestes a cair, o susto fez com que ele rolasse para perto da parede novamente e levantasse logo em seguida. Sentia como se houvesse dormido uma noite inteira, procurou com os olhos uma janela com a esperança de que fosse ver o céu azul de uma nova manhã, mas não. Só o que havia eram sinos, correntes, paredes e escadas. Mais uma vez a fome o lembrou de que era humano e que precisava se alimentar, e dessa vez doeu tão forte que teve de se apoiar com um dos braços. De repente algo brilhou em sua frente e aos poucos começou a aparecer diante de seus olhos um belo pernil, e o cheiro como o maior presente que alguém poderia ganhar entrava pelo seu nariz, todo o corpo do guerreiro urrou para dar uma dentada naquilo. Se Allen se preocupou? Não, ele não queria mais saber de nada, correu para perto do prato que havia no chão e sentou-se. Faminto pegou o pernil com as mãos e abocanhou, ele não conseguia descrever quando fora a última vez que comera algo tão saboroso em toda a sua vida. Quando tudo o que restou foi um osso, o prato sumiu junto com os restos. Belmont olhou para todos os lados esperando que fosse acontecer alguma coisa, era muito estranho que um prato de comida houvesse aparecido assim. Mas ao contrário, tudo voltou a ficar quieto. Por alguns minutos ele esperou, vendo que nada realmente mudaria continuou a sua caminhada. Esqueceu-se por um momento de olhar para cima ou para baixo, pois não faria muita diferença também. Sua mente começou a reclamar que queria sair dali, então começou a correr, tinha que ter uma saída, ele correu a escadaria até onde o seu fôlego pudesse levá-lo, quando o ar lhe faltou ele parou se apoiando nos joelhos e olhou para cima e viu que haveria ainda muito a subir e não haveria fim. Algo subiu em sua garganta, algo tão forte que ele não conseguiu controlar e disparou a rir sem parar. Encostou-se na parede e riu alto, podia rir alto ali pois ninguém o ouviria, ele estava rindo pois nesse momento pensava que finalmente tinha chegado o seu fim, pensou até que estava morto e que aquele era o seu inferno. Um brilho bateu em seu rosto e Allen olhou para o lado, outro prato de comida apareceu diante dele. Havia agora um porco assado com uma maçã na boca e umas batatas cozidas ao seu redor, o cheiro era maravilhoso e isso o enfureceu de forma louca. Ele chutou o prato de forma que ele caísse na escuridão abaixo e gritou de ódio.
               
- Está brincando comigo, não está demônio??? Está brincando comigo!!!!!
               
                Não obteve resposta, apenas o eco de sua própria voz, o que o fez ajoelhar-se e chorar novamente em completo desespero. E mais horas se passaram enquanto continuava a sua jornada sem fim. Até que novamente lhe bateu o sono e novamente dormiu. Não teve sonhos para que o tirassem da monotonia e da solidão que o envolvia. Quando acordou dessa vez não estava tão em perigo, apenas levantou-se e estranhou que por tanto tempo não sentira vontade alguma de se aliviar de qualquer forma. Mas isso não importou também. E mais horas e horas infindáveis passaram, Allen dormiu várias vezes, caminhou vários degraus, comeu várias refeições e nada mudou. Ele perdeu a noção de tudo quanto ao tempo. Se deu conta quando o seu rosto começou a ficar áspero por uma barba começar a crescer. Ele começou a contar os dias conforme ele ia dormindo, e dormia apenas uma vez. Com uma adaga que tinha consigo ele riscava a cruz de mármore para contar o tempo que passava em vezes que ele adormecia. Pelas suas contas, haviam se passado quase um mês. Aquilo foi o suficiente para se colocar na beirada e pensar em se jogar.

                - Olá?

                Allen com o susto se desequilibrou e olhou em volta com os olhos arregalados.

                - Olá, por favor, tem alguém ai? – era uma voz feminina aparentemente assustada. – Eu sei que está aí, pode me ouvir?

                Ele olhou para cima mais uma vez e correu de encontro a voz, parou por um momento e encontrou uma moça em pé que ao vê-lo colocou cruzou os braços e as pernas pois estava nua, seus cabelos vermelhos desciam até a cintura, e as sua silhueta faziam parecer que era uma ninfa dos quadros mais bonitos. Allen engoliu em seco. Os olhos da moça estavam cheios de lágrimas.

                -  É... é você, não é? É para você que fui enviada...
                - Enviada? Por quem?
                - Ele disse-me que era o dono deste castelo.
                - Dracula? – Allen apertou novamente a sua Vampire Killer.
                - Ele disse... disse... – ela começava a chorar. – Disse que eu devia ser sua... ou então minha fam...

                De repente o chicote cortou o ar e se enrolou no pescoço da jovem. Ela gritou como pôde.

                - Que tipo de feitiçaria é esta? Quem é você demônio? A mando de Dracula? Mais um truque, não é? – Allen disse entre os dentes cheio de ódio.
                - N.... não.... esp...

                Allen em um movimento puxou a Vampire Killer de uma vez só, fazendo com que apertasse de tal forma que a cabeça da moça se desprendesse do corpo matando-a ali nas escadas. Ele olhava para ela esperando que fosse desaparecer em uma chama azul. A única coisa que saiu dela foram jorros de sangue por onde devia ficar a cabeça que rolou para ele, e o contemplaram com total horror, ela ainda piscou uma vez e nada mais fez.
                Onde estava a chama azul? Ela era um demônio não era? Tinha que ser, isso era mais um truque do senhor das trevas, era mais um truque, com certeza, onde estava a chama azul? O desespero começou a crescer no coração do jovem rapaz, tinha que ter, tinha que ter, ele não podia ter simplesmente ter matado alguém inocente, não, não era verdade. O sangue que jorrava do corpo decapitado da moça encostou em seus pés e ele deu um passo atrás. Entretanto era verdade, não passava de uma jovem, que ele mesmo havia matado, e Allen gritou em horror e desespero. Se ajoelhou e pegou a cabeça da moça pedindo-lhe perdão entre um soluço e outro totalmente desconsolado, fazia carinho em seu cabelo, não fechou os olhos dela, pois queria ver o que ele havia matado e que isso ficasse cravado eternamente em seu coração. Levantou a cabeça dela até o seu rosto e beijou-lhe o lábio com gosto de cobre. Segurando pelos cabelos foi para a beirada e soltou fazendo com que caísse batendo em um ou dois sinos até desaparecer na escuridão, caminhou até o corpo e pegou-o no colo e fez a mesma coisa. E percebeu então que sua alma havia se quebrado, que seu coração havia secado. Não existia mais nada em Allen Belmont naquele momento. Deixou a poça de sangue para trás e continuou a subir, se perguntou por várias vezes o motivo de continuar subindo e não obteve mais a resposta, houveram momentos em que até se esquecia de onde estava e do que tinha que fazer.
                Vários dias se passaram, mais semanas e meses talvez, Allen já não sabia mais e também havia parado de marcar em sua cruz, a barba já estava grande, a boca não abria a não ser para comer ou gritar a fim de que escutasse a sua própria voz para aniquilar de vez em quando a solidão que sentia ali. Talvez era isso para isso que nascera, para andar por aquelas escadas, para ficar preso em seu próprio inferno. Talvez...

                - Talvez fosse bom que você parasse de subir, Allen.

                Allen passou pelo homem sem dar-lhe atenção alguma, ele sabia quem era. O homem do quarto luxuoso que fez com que ele lembrasse como tudo começou em sua vida de caçador de vampiros e demônios. Ele estava encostado na parede da torre com os braços cruzados e seus olhos curiosos seguiam o rapaz que continuava um degrau após o outro. De repente com o canto do olho ele viu que o homem caminhava ao seu lado ainda o encarando.

                - Por que faz isso, rapaz? Conseguiu encontrar a sua resposta?
               
                Allen continuou calado e subindo as escadas.

                - O que trará a você a morte de Dracula? Alguma satisfação pessoal? Alguma coisa que realmente valha a pena?

                Allen continuou a ignorá-lo, não iria falar mais nada, com certeza aquele homem era mais um demônio do castelo, mais uma magia maligna que faria com ele cometesse mais outro grotesco crime contra alguém. Ele não se deixaria enganar mais uma vez, não dessa vez. Embora no fundo gostaria de dar qualquer resposta, para que nem que por um momento pudesse conversar com alguém, mas não fez isso. Continuou andando e não conseguiu se livrar do homem, ele ainda o seguia.

                - Tenho que dizer que a sua fé em Deus é maravilhosa Allen. Ainda assim por Ele continua a subir e encontrar o senhor deste castelo.

                Allen de repente parou no meio do caminho, seu sangue ferveu e o seu corpo todo contraiu. Olhou para o chão e abriu um sorriso.

                - Fé em Deus... – ele mais uma vez pega a cruz que carregava consigo. – Fé em Deus, você diz.
                - Sim, veja bem Allen, todo ser humano tem que ter um motivo para seguir em frente, mesmo que os seus caminhos sejam para o infinito, mesmo que...
                - CALE A SUA BOCA! CALE A SUA MALDITA BOCA! – Allen berrou ferozmente apertando cada vez mais a cruz que tinha nas mãos. – Que a maldita fé esteja convosco não é? Que maravilhosa benção é essa que está sobre nós, não é verdade? A fé realmente está ao lado de todos, principalmente daqueles que morrem sem motivo! Morrem de forma inocente.
                - Deus tem as suas vontades por...
                - Por meios misteriosos? Então você vai me dizer que isso é vontade Dele? Que haja o inferno sobre a terra e que o sofrimento é vontade dele? – Allen interrompe mais uma vez.
                - Se fosse, ele não teria enviado você até aqui.
                - SE FOSSE VONTADE DELE, NADA DISSO TERIA ACONTECIDO!!! NÃO HAVERIA UM DRACULA! Não haveria a morte de Robert, não haveria a morte de tanta gente em Wallachia, não haveria a morte do bebê que eu vi, eu não teria matado a mulher que matei. Não haveria esse rio de sangue! Eu não teria perdido o meu irmão, a família dele não teria sido destruída! Eu teria tido uma vida normal, uma família de verdade, eu teria sido feliz! E imagine quantas outras não seriam felizes, também? Imaginem quantas pessoas dignas não perderam a vida a troco de nada, e eu é que vou salvar-lhes a alma? Deus não é poderoso? Por que ele não faz algo a não ser olhar e ver os seus tão amados filhos serem mortos da forma como estão sendo? Não haveria esse inferno todo, diga-me então, enquanto eu estou aqui há gente morrendo lá fora, por conta disso tudo?
                - Sim, há.
                - Crianças, mulheres, inocentes?
                - Sim, há.
                - E o que eles têm como a sua maior arma, é  por um acaso a fé?
                - Sim, é.

                Allen solta uma risada mais alta que quase o faz perder o fôlego.

                - Não me parece ser uma arma muito eficiente, não é? Pois ainda assim há o massacre daqueles que não precisam sofrer, não há então a maldita justiça divina! Sabe por que não existe nada disso? PORQUE NÃO EXISTE UM DEUS! – Allen joga a cruz que tinha em mãos contra a parede e ela se despedaça em vários pedaços.

                - É esta a sua conclusão, Allen? – o homem fala dando um passo para trás e sumindo.

                De repente tudo começa a tremer e Allen olha ao redor, um enorme bloco de pedra se desprende do resto e caiu, fazendo com que uma série de outros façam o mesmo. A torre começa a desmoronar, e ele se encostar em uma das paredes. Uma rajada tão forte de vento que vem de baixo para cima o faz levantar do chão e o joga com uma velocidade incrível para cima, ele vai subindo sem parar e conforme ele sobe, ele vai vendo as paredes todas caírem junto com as correntes e sinos, os malditos sinos que eram a única paisagem que ele teve por muito tempo. Ele é lançado para uma outra parte do castelo de Dracula.
                Ele se levanta de onde está e vê ao fundo a torre que não era tão alta ruir. Ele está em uma das torres do castelo que levava a uma mais alta e era ligada par uma outra escada. Allen fechou os olhos e deixou que o vento o tocasse, estava livre daquele confinamento. Estava fora de paredes. O ranger de dois enormes portões o fizeram retomar a atenção. Ele lentamente vai subindo pelas escadas até entrar em uma enorme sala toda iluminada por velas. Havia uma enorme mesa de jantar farta. Seu corpo petrificou em várias emoções. Pois os seus olhos bateram em quem estava ao final dela.

                - Venha, jovem Allen Belmont, deve estar com fome. – Dracula estendeu a mão indicando onde ele poderia se sentar.